A Aena apresentou nesta terça-feira (13) seus primeiros planos para o Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, com uma estratégia voltada ao crescimento da demanda e ao melhor aproveitamento da infraestrutura existente. A concessionária espanhola, que assumiu o aeroporto em 6 de outubro, não anunciou grandes obras de ampliação e condicionou a eventual reabertura do Terminal 1 ao aumento do número de passageiros e de voos.

A postura cautelosa ocorre em um momento de recuperação do Galeão, que deverá encerrar 2026 com 19,4 milhões de passageiros, segundo a Aena. O volume significa um crescimento de 10,9% em relação aos 17,5 milhões registrados em 2025, mas corresponde a apenas 52,4% da capacidade declarada de 37 milhões de passageiros anuais.

Com duas pistas, uma delas de 4 mil metros, 58 pontes de embarque e 584,7 mil m² de área construída, o Galeão dispõe de infraestrutura para acomodar uma expansão considerável do movimento sem a necessidade imediata de novos terminais.

A concessionária pretende concentrar seus esforços na atração de novas rotas domésticas e internacionais, no aumento das frequências existentes e em melhorias na experiência dos passageiros. Um plano mais detalhado de intervenções operacionais deverá ser apresentado nos próximos meses.

Vista do Píer do Aeroporto do Galeão
Vista do Píer do Aeroporto do Galeão | Aena

Terminal 1 permanece sem previsão de reabertura

Um dos principais pontos de interrogação é o futuro do Terminal 1, que deixou de receber operações regulares de passageiros há cerca de dez anos, após a concentração dos voos no Terminal 2 e no Píer Sul.

Durante a coletiva, a Aena informou que só avaliará a retomada do Terminal 1 caso o crescimento da demanda justifique a utilização de suas instalações, conforme relatou a Agência Brasil.

A empresa também mencionou melhorias em equipamentos existentes, como elevadores e esteiras de bagagens, mas não divulgou valores de investimento nem um cronograma detalhado para essas intervenções.

O Píer Sul, construído para ampliar a capacidade de atendimento a voos internacionais antes dos Jogos Olímpicos de 2016, também não recebeu anúncios específicos de expansão ou modificações.

Novo hotel do Aeroporto do Galeão
Novo hotel do Aeroporto do Galeão | RIOgaleão

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A ausência de grandes projetos de infraestrutura contrasta com a situação enfrentada por outros aeroportos brasileiros, especialmente Guarulhos, em São Paulo, onde o crescimento do movimento exige investimentos para ampliar a capacidade operacional.

No Galeão, o desafio imediato é diferente: aumentar a utilização de instalações que já estão disponíveis.

A cautela também pode ser compreendida pelo histórico da concessão. A antiga operadora, RIOgaleão, pediu a devolução do aeroporto ao governo federal em 2022, depois de enfrentar dificuldades financeiras associadas à demanda inferior à projetada originalmente.

A Aena assumiu o controle integral da concessionária após vencer o processo de venda assistida com uma proposta de R$ 2,9 bilhões. O contrato permanece válido até 2039, mas passou por uma reestruturação que substituiu obrigações financeiras fixas por pagamentos equivalentes a 20% da receita bruta.

O aeroporto Santos Dumont (Infraero)
O aeroporto Santos Dumont (Infraero)

Santos Dumont terá restrições retiradas até 2029

Outro elemento importante para os planos da Aena é a relação entre o Galeão e o Aeroporto Santos Dumont, localizado na região central do Rio de Janeiro.

As restrições impostas ao Santos Dumont a partir de 2023 contribuíram para a recuperação do movimento no Galeão, ao transferir parte das operações domésticas para o aeroporto internacional.

O Galeão havia registrado apenas 5,9 milhões de passageiros em 2022, antes de recuperar gradualmente sua movimentação e alcançar 17,5 milhões em 2025.

Entretanto, a proteção proporcionada pelas restrições ao Santos Dumont não será permanente.

Durante a coletiva, o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, confirmou que o cronograma de flexibilização permanece válido. O limite atual de 6,5 milhões de passageiros anuais poderá subir para 8,5 milhões em 2027 e 9,5 milhões em 2028, com a retirada das restrições em 2029.

Segundo o ministro, a manutenção de limites inferiores aos estabelecidos no acordo poderá resultar em reequilíbrio contratual desfavorável à concessionária do Galeão.

Loja Dufry do aeroporto do Galeão
Loja Dufry do aeroporto do Galeão

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), por sua vez, defende que a flexibilização das operações no Santos Dumont não provoque uma simples transferência de voos do Galeão para o aeroporto central.

O presidente da agência, Tiago Faierstein, afirmou durante o evento que o Brasil precisa desenvolver outros grandes aeroportos internacionais e não pode depender exclusivamente de Guarulhos para concentrar a conectividade com o exterior.

Congonhas também está sob controle da Aena

A entrada do Galeão na rede brasileira da Aena cria outra possibilidade de desenvolvimento comercial: a integração com os demais aeroportos administrados pela concessionária, especialmente Congonhas, em São Paulo.

A empresa passou a controlar dois dos principais aeroportos do país, com características diferentes. Enquanto Congonhas concentra uma movimentação doméstica elevada e dispõe de capacidade limitada para expansão, o Galeão possui infraestrutura para receber um volume significativamente maior de passageiros e voos internacionais.

A Aena menciona essa complementaridade entre os aeroportos como uma oportunidade para desenvolver novas conexões e ampliar a oferta de serviços às companhias aéreas.

A estratégia, contudo, ainda não foi detalhada. Não houve anúncio de novas ligações específicas entre Congonhas e o Galeão nem de mudanças na distribuição das operações entre os dois aeroportos.

A possibilidade de utilizar Congonhas como origem de conexões para voos internacionais no Galeão dependerá principalmente das decisões comerciais das companhias aéreas, dos horários disponíveis e da conveniência das ligações oferecidas aos passageiros.

Jato A330-200 da Wamos com pintura da GOL no Galeão
Jato A330-200 da Wamos com pintura da GOL no Galeão | GOL

Para o verão, a Aena já identifica aumentos de frequência em 30 destinos atendidos pelo Galeão, sendo 18 domésticos e 12 internacionais. A programação inclui novas rotas, retomadas sazonais e reforços de operações existentes.

A concessionária também apresentou projetos de desenvolvimento comercial e imobiliário que somam aproximadamente R$ 1 bilhão em investimentos privados nos próximos três anos, incluindo um hangar de manutenção da GOL, instalações logísticas, um hotel e um centro de testes da BYD.

Esses investimentos, entretanto, não representam um programa de ampliação da capacidade dos terminais de passageiros. São empreendimentos previstos para áreas do complexo aeroportuário, cuja execução ficará a cargo de empresas parceiras.

A Aena administra agora 18 aeroportos em dez estados brasileiros, com movimentação anual superior a 63 milhões de passageiros. No Galeão, sua prioridade inicial será recuperar a demanda e melhorar a utilização de uma infraestrutura que ainda dispõe de capacidade para receber cerca de 17,6 milhões de passageiros adicionais por ano.