A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) informou que analisará as recomendações emitidas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) após a divulgação do relatório final sobre a queda do ATR 72-500 da VoePass em Vinhedo (SP), acidente que matou as 62 pessoas a bordo em agosto de 2024.

Segundo a agência, o documento será submetido a uma análise técnica detalhada, com conclusão prevista em até 120 dias. O trabalho abrangerá as recomendações relacionadas às atribuições da ANAC, que foi apontada pelo Cenipa como um dos fatores contribuintes para o acidente.

No relatório divulgado na quinta-feira (23), os investigadores afirmam que auditorias e inspeções anteriores já haviam identificado diversas não conformidades na VoePass, incluindo problemas de manutenção, rastreabilidade de componentes e falhas no registro de panes. Para o Cenipa, o gerenciamento de risco da ANAC não transformou essas informações em medidas capazes de mitigar os riscos operacionais da companhia.

Em nota, a agência destacou que as investigações do Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores contribuintes e recomendações para aumentar a segurança operacional.

Imagem do local da queda do ATR 72 da VoePass
Imagem do local da queda do ATR 72 da VoePass

A ANAC também relembrou que suspendeu as operações da VoePass em março de 2025 e cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa em junho do mesmo ano. Segundo a agência, a decisão foi tomada após a companhia não conseguir corrigir irregularidades identificadas durante ações de fiscalização.

O relatório do Cenipa concluiu que o ATR decolou de Cascavel com falha no sistema de degelo da estrutura da aeronave e enfrentou condições severas de formação de gelo previstas para a rota. A investigação apontou ainda que panes recorrentes não eram registradas formalmente, alertas emitidos durante o voo não foram tratados conforme os procedimentos previstos e a recuperação do estol ocorreu de forma inadequada, levando à perda de controle da aeronave.

Além dos aspectos técnicos, os investigadores identificaram problemas na cultura operacional da VoePass, como informalidade excessiva, flexibilização de procedimentos, normalização de desvios e deficiência na supervisão gerencial.

Avião entrou em parafuso chato
Avião entrou em parafuso chato

VoePass diz seguir padrões internacionais de segurança

Em sua primeira manifestação após a divulgação do relatório, a VoePass afirmou que sua atuação "sempre esteve pautada em padrões internacionais de segurança" e destacou que mantinha a certificação IOSA desde 2012.

A empresa também declarou que a tripulação do voo 2283 era "experiente, capacitada e devidamente certificada", com mais de 5 mil horas de voo, além de treinamentos técnicos e acompanhamento médico atualizados. Segundo a companhia, este foi o primeiro acidente fatal em mais de 30 anos de operação.

A VoePass afirmou ainda que continua colaborando com o Cenipa e demais autoridades e permanece à disposição para contribuir com as investigações. Atualmente, a empresa permanece sem operações comerciais após perder seu certificado de operador aéreo e ter grande parte de sua frota retirada de serviço.