A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) foi alertada anos antes do acidente com o voo 2283 da Voepass sobre possíveis irregularidades envolvendo manutenção e uso de peças em aviões ligados à companhia, mas não acatou uma recomendação feita por um de seus inspetores para suspender as operações da empresa.

Documentos revelados pelo programa Fantástico, da TV Globo, no domingo (9), mostram que o servidor, que trabalhou durante 16 anos na ANAC, relatou ter encontrado componentes utilizados sem comprovação adequada de sua condição de aeronavegabilidade.

O primeiro episódio ocorreu em 2019 e envolvia a MAP Linhas Aéreas. Naquele ano, o inspetor recomendou a suspensão da autorização da companhia por considerar graves os problemas encontrados durante a fiscalização. A recomendação, porém, não foi aceita pela ANAC.

Também em 2019, a MAP foi adquirida pela Passaredo Linhas Aéreas, que posteriormente adotou a marca Voepass. As empresas permaneceram com certificados de operador distintos, embora fizessem parte do mesmo grupo.

Imagem do local da queda do ATR 72 da VoePass
Imagem do local da queda do ATR 72 da VoePass

Segundo a reportagem, o inspetor continuou questionando internamente a forma como os problemas eram tratados pela agência e acabou entrando em conflito com seus superiores. Ele também comunicou suas preocupações a autoridades aeronáuticas estrangeiras, entre elas a Federal Aviation Administration (FAA), dos Estados Unidos, e a European Union Aviation Safety Agency (EASA).

A ANAC posteriormente informou às autoridades estrangeiras que o servidor não estava autorizado a falar em nome da agência. Ele também foi alvo de procedimento administrativo relacionado à sua atuação e acabou exonerado em 2025.

Peças de avião acidentado

Uma nova denúncia foi apresentada pelo inspetor em 2022. Desta vez, o caso envolvia componentes provenientes de um avião que havia sofrido um acidente em Rondonópolis (MT), em 2016.

De acordo com o ex-servidor, peças retiradas desse avião teriam sido posteriormente reaproveitadas de maneira irregular. A ANAC afirma que analisou o caso e que os componentes passaram pelas verificações previstas nas normas aplicáveis.

As denúncias ganharam nova dimensão após o acidente mais grave da história da Voepass. Em 9 de agosto de 2024, o ATR 72-500 PS-VPB caiu em Vinhedo (SP) durante o voo 2283, entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), matando as 62 pessoas a bordo.

Executivos da empresa são alvo de inquérito da PF (VoePass)
Executivos da empresa são alvo de inquérito da PF (VoePass)

Após o acidente, a fiscalização sobre a companhia foi intensificada. Em março de 2025, a ANAC suspendeu cautelarmente as operações da Voepass após identificar problemas em seus sistemas de gestão e considerar que a empresa não cumpria as condições estabelecidas para manter suas operações.

Três meses depois, em junho, a agência cassou definitivamente o Certificado de Operador Aéreo (COA) da companhia.

PF indicia 16 pessoas

A revelação sobre os alertas feitos dentro da ANAC ocorreu poucos dias depois de a Polícia Federal concluir o inquérito sobre a queda do PS-VPB.

Na quinta-feira (6), a PF indiciou 16 pessoas ligadas à Voepass, entre funcionários, ex-funcionários e dirigentes, incluindo o presidente da companhia, José Luiz Felício Filho.

Um dos principais pontos da investigação envolve o sistema de proteção contra gelo do ATR 72-500. A análise dos dados armazenados pelo gravador de voo mostrou sucessivos desligamentos e religamentos do sistema nos 136 voos anteriores analisados pela PF.

Segundo os investigadores, problemas relacionados ao sistema não teriam sido registrados no diário técnico do avião. A PF identificou ainda ocorrências nos voos realizados pelo próprio PS-VPB antes do acidente em 9 de agosto de 2024.

A investigação apontou a existência de uma prática dentro da companhia de não registrar adequadamente determinadas falhas técnicas. Esses registros são relevantes porque podem determinar ações de manutenção e restrições para que um avião continue em operação.

MAP Linhas Aéreas (MAP)
MAP Linhas Aéreas (MAP)

Além de dirigentes e profissionais ligados à manutenção e às operações da Voepass, os dois pilotos do voo 2283, que morreram no acidente, também foram indiciados. A PF apontou decisões tomadas pela tripulação diante das condições de formação de gelo encontradas durante o voo.

A Polícia Federal também encaminhou elementos da investigação para avaliação de eventual responsabilidade de agentes públicos. Até o momento, os 16 indiciados são ligados à Voepass, e não à ANAC.

O indiciamento não representa condenação. O material reunido pela Polícia Federal será analisado pelo Ministério Público Federal, que poderá decidir pela apresentação de denúncia à Justiça.