Fundada por ex-funcionários da Embraer, a DESAER tenta há oito anos viabilizar um novo fabricante brasileiro de aviões. Seu primeiro projeto, o ATL-100, é um bimotor turboélice utilitário para até 19 passageiros que guarda várias semelhanças conceituais com o Cessna SkyCourier, incluindo asa alta, trem de pouso fixo e capacidade para operar em pistas com pouca infraestrutura.
Apresentado em 2018, o avião foi concebido para transportar passageiros e cargas e também atender missões militares, de segurança e evacuação aeromédica. Uma rampa traseira permite o embarque de cargas volumosas e facilita a mudança entre diferentes configurações.
O ATL-100, no entanto, ainda existe apenas como projeto. A DESAER anunciou nesta semana que selecionou o portfólio de softwares industriais Siemens Xcelerator para prosseguir com o desenvolvimento da aeronave.
As ferramentas serão usadas para criar um gêmeo digital do ATL-100 e conectar diferentes áreas do desenvolvimento. A empresa poderá trabalhar virtualmente no projeto, simular sistemas e estruturas e avaliar o desempenho antes da fabricação de componentes e do primeiro protótipo.
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O pacote inclui os softwares Designcenter, para projeto mecânico e engenharia 3D; Capital, para sistemas elétricos e eletrônicos; Teamcenter, para gerenciamento de dados; e Simcenter, utilizado em simulações de estruturas, dinâmica dos fluidos e outros parâmetros.

Protótipo era previsto para esta década
A adoção das ferramentas da Siemens ocorre depois de uma sucessão de planos para colocar o ATL-100 em produção que não avançaram nos prazos originalmente divulgados.
Quando apresentou o projeto ao Airway em outubro de 2018, a DESAER estimava gastar cerca de US$ 80 milhões em seu desenvolvimento. A expectativa era concluir a engenharia em dois ou três anos e posteriormente utilizar mais um ano para construir dois protótipos.
O fundador da empresa, Evandro Fileno, trabalhou por cerca de 20 anos na Embraer. A DESAER foi criada em 2017 em São José dos Campos e reuniu diversos profissionais com passagem pela fabricante brasileira.
Em 2020, a empresa anunciou uma joint venture com o centro de engenharia CEiiA para desenvolver e industrializar o ATL-100 em Portugal. Naquele momento, a previsão era ter um protótipo em 2023 e iniciar as entregas entre 2025 e 2026.
A parceria terminou antes que o avião fosse construído e posteriormente deu origem a uma disputa. A DESAER acusa o CEiiA de utilizar informações técnicas obtidas durante a cooperação no desenvolvimento do LUS-222, outro bimotor utilitário para 19 passageiros apresentado em Portugal. O grupo português contesta as acusações.

Fábrica em Araxá também não avançou
Após o fim da parceria portuguesa, a DESAER voltou seus planos industriais para o Brasil. Em 2021, anunciou a intenção de instalar uma fábrica ao lado do aeroporto de Araxá, em Minas Gerais.
O município posteriormente concedeu uma área de 277.800 metros quadrados para o empreendimento. Em 2022, o projeto da fábrica foi anunciado com investimento previsto de R$ 658 milhões e expectativa de criação de cerca de mil empregos.
Na ocasião, a empresa afirmava já possuir contratos com clientes e previa entregar os primeiros aviões até 2024. A fábrica e as aeronaves não ficaram prontas dentro desse cronograma.
Uma reportagem da Pesquisa FAPESP publicada em 2022 mostrava que o projeto do ATL-100 estava então 58% concluído. A DESAER contava com 36 engenheiros e estimava que ainda seriam necessários aproximadamente 18 meses de engenharia antes da construção do primeiro protótipo.

Maricá é nova tentativa de viabilizar avião
O programa ganhou um novo endereço em 2025, quando a DESAER assinou um protocolo de intenções com a Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar), no Rio de Janeiro, para instalar uma unidade no município.
Em março de 2026, Prefeitura de Maricá, Codemar e Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM) avançaram na parceria por meio de uma Encomenda Tecnológica e um termo de cooperação. O investimento público anunciado é de R$ 32 milhões para atividades de pesquisa e desenvolvimento, engenharia, testes e validação.
A DESAER também anunciou em julho a seleção de 40 engenheiros e arquitetos para trabalhar em Maricá. A intenção é desenvolver inicialmente as atividades no Galpão Tecnológico de Inoã e posteriormente produzir aeronaves no município.
Apesar desses movimentos e da contratação das ferramentas da Siemens, ainda não foi divulgado um novo cronograma para a construção do primeiro ATL-100, seu primeiro voo, certificação ou entrada em serviço.
