O jato comercial C919 da chinesa COMAC realiza nesta quarta-feira, 12 de agosto, seu primeiro voo internacional. A Air China utilizará o jato de corredor único na rota entre Pequim e Ulaanbaatar, na Mongólia.

O voo CA901 deve decolar do Aeroporto Internacional da Capital Pequim às 15h, horário local, com chegada prevista à capital mongol pouco mais de duas horas depois. O voo marcará o primeiro uso do C919 em serviço regular internacional de passageiros, mais de três anos após a entrada em operação comercial com a China Eastern Airlines, em maio de 2023.

A rota relativamente curta para a vizinha Mongólia, no entanto, diz pouco sobre a prontidão do C919 para se tornar o concorrente global do Airbus A320neo e do Boeing 737 MAX, como a China promove há anos.

Por enquanto, a aeronave segue quase totalmente dependente do mercado chinês, é fabricada em ritmo muito inferior ao de Airbus e Boeing e não possui certificação de nenhum dos dois principais órgãos ocidentais de segurança da aviação.

COMAC C919 2026 (COMAC)
COMAC C919 2026 (COMAC)

Produção segue como um dos maiores desafios

A COMAC desenvolveu o C919 para o maior segmento do mercado de aviação comercial. Dependendo da configuração, o avião pode transportar até 174 passageiros e disputa diretamente com as famílias A320neo e 737 MAX.

O fabricante chinês acumulou uma carteira de pedidos significativa, em sua maioria de companhias aéreas e empresas de leasing chinesas. Transformar esses compromissos em aeronaves entregues, porém, tem se mostrado muito mais difícil.

A COMAC entregou apenas 15 unidades do C919 em 2025, bem abaixo das 75 aeronaves inicialmente previstas para o ano. A produção acelerou no final de 2025, mas os números seguem modestos em comparação com Airbus e Boeing.

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Ambos os fabricantes ocidentais produzem suas famílias concorrentes de jatos de corredor único em volumes de dezenas de aeronaves por mês, enquanto a COMAC ainda busca consolidar um sistema de produção estável para o C919.

A frota relativamente pequena também dificulta avaliar o real nível de competitividade da aeronave.

Diferentemente do A320neo e do 737 MAX, que operam com centenas de companhias aéreas sob condições variadas, o C919 acumulou a maior parte de sua experiência comercial em um grupo restrito de operadores chineses. Informações independentes detalhadas sobre confiabilidade operacional, custos de manutenção, consumo de combustível e outros indicadores de desempenho ainda são escassas.

Fábrica da COMAC que será ampliada para produzir mais C919
Fábrica da COMAC que será ampliada para produzir mais C919

Certificação europeia ainda está distante

Um teste mais relevante para o C919 virá da Agência de Aviação da União Europeia (EASA).

A COMAC busca a validação europeia do certificado de tipo chinês da aeronave, requisito que pode abrir mercados substancialmente maiores para o C919 e oferecer às companhias estrangeiras uma avaliação regulatória independente do projeto.

Mas o processo está levando bem mais tempo do que a COMAC previa.

Em abril de 2025, o diretor-executivo da EASA, Florian Guillermet, informou formalmente à COMAC que a aeronave não receberia certificação europeia naquele ano. Ele estimou que a aprovação poderia levar de três a seis anos, o que pode empurrar a certificação para o período entre 2028 e 2031.

Desde então, houve avanços. Pilotos da EASA voaram o C919 na China como parte das atividades de validação do órgão, mais uma etapa da avaliação técnica, mas sem indicar que a certificação seja iminente.

Até que o C919 obtenha aprovação da EASA ou de outro grande regulador, como a Administração Federal de Aviação dos EUA, seu potencial de vendas fora da China seguirá restrito.

Aeronave COMAC C919 da China Southern e Air China
Aeronave COMAC C919 da China Southern e Air China

Construído com tecnologia ocidental

Há outra contradição central no programa C919. Embora a aeronave tenha como objetivo reduzir a dependência chinesa de Boeing e Airbus, grande parte da tecnologia necessária para sua fabricação ainda vem de fornecedores ocidentais.

O exemplo mais evidente é o motor. O C919 utiliza o LEAP-1C, produzido pela CFM International, joint venture entre a norte-americana GE Aerospace e a francesa Safran Aircraft Engines.

Diversos outros sistemas e componentes importantes também são fornecidos por empresas ocidentais, tornando o programa vulnerável a mudanças na relação política entre Pequim e Washington.

Essa vulnerabilidade ficou especialmente clara em 2025, quando o governo dos EUA suspendeu temporariamente licenças para exportação de algumas tecnologias aeronáuticas à China durante um período de tensão comercial. Posteriormente, Washington autorizou a retomada dos embarques, incluindo motores LEAP-1C para o C919.

O episódio evidenciou como a cadeia de suprimentos do C919 pode ser afetada por disputas geopolíticas alheias ao próprio programa.

A China desenvolve alternativas nacionais, como o motor CJ-1000A, que futuramente deverá substituir o LEAP-1C, mas essas tecnologias ainda não estão prontas para eliminar a dependência do C919 em relação a fornecedores estrangeiros.

O "Airbus chinês" C919
O "Airbus chinês" C919

Voo internacional, mas ainda não um avião internacional

Levar passageiros de Pequim a Ulaanbaatar tem valor simbólico, mas não elimina as limitações fundamentais do programa.

O C919 já demonstrou que a China é capaz de desenvolver, certificar sob seu próprio sistema regulatório e colocar em operação comercial um jato moderno de corredor único. O desafio maior é produzir em larga escala, comprovar sua eficiência operacional ao longo de anos de serviço e conquistar a aceitação de reguladores e operadores fora da China.

A certificação europeia pode, no futuro, abrir ao C919 um mercado internacional muito mais amplo. O trabalho da EASA com a COMAC mostra que o processo avança, mas o cronograma do órgão indica que uma decisão ainda está distante.

Por ora, o primeiro voo internacional regular do C919 amplia seu alcance geográfico, mas sua capacidade de desafiar o duopólio Airbus-Boeing permanece, em grande parte, uma promessa.