A China está gradualmente estudando materiais e componentes para substituir itens de origem ocidental utilizados no jato comercial COMAC C919, numa tentativa de reduzir a dependência do programa de aeronaves em relação a fornecedores estrangeiros.
A iniciativa vai muito além da dependência mais visível do C919 em motores e aviônicos ocidentais. Empresas e institutos de pesquisa chineses desenvolvem alternativas nacionais para produtos que vão desde selantes e borrachas até tintas, fixadores e materiais de limpeza usados na fabricação de aeronaves.
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Os detalhes vieram à tona durante um fórum da indústria aeronáutica realizado em Guangzhou, no início deste mês, o mesmo evento em que companhias aéreas chinesas discutiram o aumento da demanda pelo C919 e as dificuldades da COMAC para ampliar a produção.
Segundo o South China Morning Post, Zhang Xiaoyan, engenheira-chefe do Instituto de Materiais Aeronáuticos de Pequim, afirmou que alguns materiais desenvolvidos localmente já estão em teste no C919, enquanto outros passam por avaliação da COMAC.

Um exemplo é o HM1176, selante desenvolvido na China que vem sendo utilizado no programa C919 e no motor CJ-1000, também nacional, desde 2025.
A natureza aparentemente trivial de alguns desses componentes ilustra o tamanho do desafio enfrentado pela China. Construir uma indústria aeronáutica comercial autônoma exige muito mais do que substituir alguns grandes sistemas importados.
Tecnologia ocidental em todo o C919
Apesar de ser promovido como o primeiro jato comercial de corredor único desenvolvido na China, o C919 foi projetado com uma cadeia global de suprimentos que inclui um número significativo de sistemas ocidentais.
Os motores LEAP-1C da CFM International são o exemplo mais evidente, mas empresas como Honeywell, Collins Aerospace, Parker Aerospace, Eaton, Thales, Liebherr, Safran e Moog também fornecem sistemas e componentes para a aeronave.
Muitos desses produtos estão profundamente integrados ao C919 e não podem ser simplesmente trocados sem trabalho de engenharia, testes e certificação.
Por isso, a China não busca uma substituição imediata e total dos equipamentos ocidentais. O esforço atual visa criar alternativas nacionais qualificadas que possam ser gradualmente disponibilizadas à COMAC.

Zhang reconheceu que a China ainda depende de um grupo relativamente pequeno de fornecedores dos Estados Unidos e da Europa para alguns materiais aeroespaciais avançados.
A dimensão geopolítica é difícil de ignorar. Restrições impostas pelos Estados Unidos à exportação de tecnologia aeronáutica já expuseram a dependência dos programas chineses de aviação comercial em relação a equipamentos estrangeiros. Desenvolver fornecedores alternativos dá à COMAC maior controle sobre sua cadeia de produção e reduz o impacto potencial de futuras restrições de exportação.
O mesmo objetivo aparece na área de propulsão. A China desenvolve o AECC CJ-1000A como alternativa nacional ao LEAP-1C, embora o motor chinês ainda esteja em desenvolvimento e o C919 continue utilizando unidades da CFM.

Reduzir dependência sem comprometer a certificação europeia
A substituição de componentes em uma aeronave comercial certificada apresenta outro desafio: toda alteração significativa pode afetar a configuração aprovada.
A estratégia chinesa, portanto, parece ser evolutiva, e não uma tentativa de redesenhar o C919 de uma só vez com sistemas nacionais.
Zhang afirmou que o desenvolvimento de alternativas chinesas não deve interferir no esforço da COMAC para obter a certificação europeia do C919, processo que segue em andamento junto à AESA, a Agência de Segurança da Aviação da União Europeia.
O movimento de nacionalização ocorre também em meio à pressão para acelerar as entregas do C919. Companhias aéreas chinesas já acumularam grandes encomendas do jato, enquanto outras manifestaram publicamente interesse em adquiri-lo.
A produção, no entanto, segue muito abaixo dos níveis alcançados por Airbus e Boeing. Restrições na cadeia de suprimentos estão entre os desafios que a COMAC precisa superar caso queira ampliar significativamente sua capacidade de entrega.
