Os jatos da Spirit Airlines já estão sendo vendidos ou devolvidos aos arrendadores após o encerramento das operações da companhia aérea norte-americana, mas o desmonte vai além. Agora, até mesmo os e-mails, mensagens internas e documentos empresariais da empresa extinta encontraram um comprador.

O Google venceu um leilão de falência por uma grande coleção de dados corporativos e softwares proprietários da Spirit, concordando em pagar US$ 10 milhões pelo material que pretende usar para desenvolvimento de produtos e treinamento de inteligência artificial.

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O pacote, considerado incomum, inclui cerca de 100 milhões de e-mails de funcionários e 500 milhões de mensagens do Microsoft Teams, conforme documentos apresentados à corte de falências. Também fazem parte do lote calendários, planilhas e outros documentos sobre temas como operações da companhia aérea, marketing e produtividade dos funcionários.

Informações de passageiros estão excluídas da transação. O Google afirmou que não receberá perfis de clientes, dados de programas de fidelidade nem informações de cartões de crédito, e que dados pessoais identificáveis deverão ser removidos antes da transferência do material.

O Google inicialmente ofereceu US$ 5 milhões pelos ativos. A empresa de dados para IA Mercor fez uma oferta subsequente de US$ 7,5 milhões, antes de o Google aumentar sua proposta para US$ 10 milhões e vencer o leilão.

Airbus A321 da Spirit Airlines (Tomás Del Coro)
Airbus A321 da Spirit Airlines (Tomás Del Coro)

A venda ainda precisa ser aprovada pelo Tribunal de Falências do Distrito Sul de Nova York, com audiência marcada para 19 de agosto.

De grande companhia de baixo custo à liquidação

O enorme acervo da Spirit é resultado de uma empresa que operou por décadas e, até recentemente, figurava entre as maiores companhias aéreas ultra low-cost dos Estados Unidos.

A companhia construiu seu modelo de negócios com tarifas agressivamente segmentadas e operava uma frota composta apenas por aeronaves da família Airbus A320. Sua rápida expansão na década anterior levou a empresa a contar com mais de 200 aviões e compromissos substanciais para novos jatos da família A320neo.

A situação financeira da Spirit piorou após a pandemia. Problemas nos motores Pratt & Whitney PW1100G também forçaram a retirada de serviço de diversas aeronaves A320neo, reduzindo a capacidade da companhia em um momento especialmente difícil.

Uma tentativa de aquisição por US$ 3,8 bilhões pela JetBlue Airways ofereceu uma possível saída para a Spirit, mas o acordo foi bloqueado por um juiz federal em janeiro de 2024 por questões de concorrência. Dois meses depois, a JetBlue desistiu da transação.

A Spirit entrou com pedido de proteção contra falência sob o Capítulo 11 pela primeira vez em novembro de 2024 e saiu em março de 2025 após reestruturar suas dívidas. A recuperação durou pouco. A companhia retornou ao Capítulo 11 em agosto de 2025 e começou a reduzir progressivamente sua frota.

Spirit Airlines A320
Spirit Airlines A320 | JTOcchialini

Em março deste ano, a Spirit ainda esperava sobreviver. Uma proposta de reestruturação previa uma frota de apenas 76 a 80 aeronaves até o terceiro trimestre de 2026, cerca de um terço do tamanho que tinha ao entrar no segundo processo de falência.

Esses planos ruíram em poucas semanas. Em 2 de maio, a Spirit anunciou que havia esgotado as opções de financiamento viáveis após nova piora em sua situação financeira, agravada pelo aumento do preço do combustível. Todos os voos foram cancelados e a companhia iniciou um processo de encerramento ordenado.

A Spirit possuía 114 aeronaves da família Airbus A320 quando encerrou as operações, incluindo 66 aviões arrendados e 48 próprios. O processo de falência passou então a vender aeronaves e outros ativos remanescentes para recuperar recursos para os credores.

Agora, esse processo chegou a ativos que normalmente desapareceriam com uma companhia aérea. Em vez de serem descartados, anos de comunicações internas e registros operacionais passaram a ter valor para um setor totalmente diferente: o treinamento de sistemas de inteligência artificial sobre como uma empresa real funcionava nos bastidores.