O Aeroporto Internacional de Guarulhos prepara a implantação do primeiro sistema antidrones em um aeroporto brasileiro, após uma série de ocorrências que obrigaram a interromper pousos e decolagens e provocaram atrasos, cancelamentos e desvios de voos.
A GRU Airport, concessionária do aeroporto, já elaborou o termo de referência para o sistema. A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) analisou o documento, que agora está sob avaliação do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e da Polícia Federal.
A expectativa é receber as manifestações dos dois órgãos até o fim de setembro para que a concessionária possa consultar fornecedores e estimar o investimento necessário, segundo Tadeu Neves, gerente de operações da GRU Airport.
“Nós compartilhamos o termo de referência com a Anac, que já nos retornou. Com essas informações, a gente compilou e encaminhou para o Decea e para a Polícia Federal”, afirmou Neves durante o Aviation Infra Summit 2026.
Siga AIRWAY: WhatsApp | Instagram | LinkedIn | Twitter | Facebook
O projeto prevê mais do que localizar uma aeronave não tripulada nas proximidades das pistas. A intenção é detectar e acompanhar o drone, buscar a identificação de seu operador e contar com meios para neutralizá-lo quando representar risco às operações.
Guarulhos foi escolhido pelo governo federal para receber a primeira experiência desse tipo na aviação comercial brasileira. Em setembro, o Ministério de Portos e Aeroportos estabeleceu diretrizes para implantação de uma solução de detecção, monitoramento, mitigação e neutralização de drones no aeroporto.

Bloqueadores exigem participação de órgãos públicos
Uma das dificuldades está justamente na última etapa do sistema. Entre as tecnologias estudadas estão bloqueadores de radiofrequência, conhecidos como jammers, e soluções capazes de assumir eletronicamente o controle de determinados drones.
A utilização de jammers é regulamentada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Empresas privadas não estão entre os usuários autorizados a operar Bloqueadores de Sinais de Radiocomunicações (BSR), embora a regulamentação permita seu emprego em aeroportos por órgãos habilitados.
Isso exige que a implantação em Guarulhos envolva outras autoridades além da concessionária responsável pela infraestrutura aeroportuária.
“Para além das regras da ANAC e DECEA, a neutralização de drones envolve bloqueadores de radiofrequência, o que também exige a atuação da Anatel”, explicou Giovano Palma, superintendente de infraestrutura aeroportuária da Anac, durante o evento.
Notícias recentes
As regras da Anatel já contemplam equipamentos destinados a combater drones. O bloqueio pode alcançar frequências utilizadas no comando da aeronave e em sistemas de navegação por satélite, mas deve ser acionado de maneira intermitente, após a detecção de um drone, e com a menor potência necessária para limitar a interferência à área determinada.
Atualmente, aeroportos brasileiros trabalham principalmente com procedimentos de resposta após o avistamento de uma aeronave não tripulada. Dependendo da posição e do risco apresentado pelo drone, o controle de tráfego aéreo pode suspender temporariamente as operações.

52 ocorrências afetaram voos em 2026
O DECEA registrou 52 ocorrências envolvendo drones que tiveram impacto sobre a aviação regular brasileira em 2026. Desse total, 14 aconteceram em Guarulhos, segundo o coronel Diego Henrique de Brito, diretor-adjunto de Serviços de Navegação Aérea do órgão.
Um dos episódios mais recentes ocorreu em agosto. A presença de um drone nas proximidades do aeroporto levou à suspensão temporária das operações e obrigou aeronaves em aproximação a interromper pousos.
Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), a ocorrência provocou cerca de 40 minutos de interrupção, 20 atrasos e oito cancelamentos entre as companhias brasileiras. A entidade estima que 4,9 mil passageiros foram afetados.
Guarulhos também enfrentou interrupções provocadas por drones em fevereiro. Dois episódios naquele mês mantiveram o aeroporto sem operações por períodos prolongados e fizeram aeronaves alternarem para outros aeroportos.
A Polícia Federal, que participa da análise do projeto de Guarulhos, já adquiriu tecnologia para combater aeronaves não tripuladas. Em julho, o órgão contratou por R$ 2,3 milhões (cerca de US$ 430 mil) um sistema de proteção contra drones.



