Se atualmente a Embraer disputa mercado com Airbus (com o A220), Lockheed Martin (C-130) e Cessna e outros fabricantes de jatos executivos, houve uma época que a “arquirrival” da fabricante brasileira se chamava Saab.
Sim, a mesma Saab que hoje é parceira da Embraer na montagem dos caças F-39 Gripen E/F para a Força Aérea Brasileira (FAB).
E a empresa sueca é o que se pode chamar de uma competidora indigesta já que o turboélice de passageiros Saab 340 “sobrou” perante o EMB 120 Brasilia na década de 80.
Pois a aeronave da Saab completa nesta quarta-feira, 25 de janeiro, 40 anos de seu primeiro voo, quando ainda era um projeto conjunto com a norte-americana Farchild (na época chamado de SF-340).
Com capacidade para transportar até 34 passageiros, o Saab 340 era feito sob medida para o efervescente mercado “commuter” dos Estados Unidos, que até então dependia de turboélices menores e sem pressurização como o EMB 110 Bandeirante, da própria Embraer.
A Saab projetou então uma aeronave bimotor pressurizada, que era propulsionada por motores GE CT7-9B com hélices de quatro pás. Eles eram derivados do T700, um propulsor desenvolvido para o helicóptero Black Hawk, originalmente.
Os estudos tiveram início em meados da década de 70 e em 1980 a Saab acertou uma parceria com a Farchild, então bastante experiente em produção de aviões civis. O programa passou a chamar a aeronave de SF340 enquanto o primeiro protótipo era construído.
Por conta da sua experiência com caças como o Draken e o Viggen, a Saab propôs construir o turboélice com uma técnica de colagem por difusão em vez do tradicional rebite, o que resultou em menor peso da fuselagem.
Rivalidade com o Brasilia
O primeiro voo ocorreu em 25 de janeiro de 1983, uma terça-feira gelada de inverno na pista em Tannefors, na Suécia, e durou 81 minutos. A aeronave de registro SE-ISF trazia uma fuselagem com a pintura de duas das primeiras clientes, a companhia regional suíça Crossair do lado esquerdo, e a norte-americana Air Midwest do lado direito.
Foi assim que o primeiro SF340 se apresentou no Salão de Le Bourget em 1983, mas no ano seguinte, em Farnborough, o turboélice já exibia outra pintura, da Comair, dos EUA.
A entrada em serviço ocorreu em junho de 1984 com a Crossair tendo um ilustre primeiro passageiro, o Papa João Paulo II, que decidiu permanecer na cabine de comando durante o pouso do voo de estreia.
Em 1985, a Farchild deixou a parceria após 40 aeronaves entregues e a Saab passou a chamar o avião apenas de “340”. Nessa época, a Embraer estava um pouco atrás no desenvolvimento do Brasilia, tendo realizado o primeiro voo da aeronave em julho de 1983, mas a entrada em serviço só ocorrendo em outubro de 1985.
A disputa por clientes, sobretudo nos EUA, foi acirrada, com as duas fabricantes anunciando pedidos importantes. O desempenho do Saab 340 e do EMB 120 eram bastante diferentes a despeito da aparência similar. Enquanto o avião brasileiro era bastante veloz o rival sueco se mostrou uma aeronave mais previsível e sólida, segundo relatos de pilotos que voaram ambas. Além disso, o 340 tinha maior capacidade de passsageiros e uma cabine ligeiramente mais espaçosa.
Jogada seguinte
No fim das contas, a Saab foi vitoriosa com o 340, que amealhou 459 aeronaves produzidas, 102 a mais que o Brasilia. O troco da Embraer, no entanto, veio na geração seguinte de aeronave regional.
Enquanto a fabricante sueca achou por bem desenvolver uma versão maior e mais moderna do turboélice, o Saab 2000, a companhia brasileira vislumbrou um potencial maior para um jato regional, lançando o ERJ 145 nos anos 90.
A jogada de mestre da Embraer acabou a tornando uma referência nesse mercado enquanto a Saab decidiu encerrar a produção de aviões civis.
Apesar disso, o Saab 340 permanece sendo um turboélice muito admirado pela sua segurança e resistência. Mais da metade das aeronaves produzida continua voando regularmente, muitas delas convertidas para carga, com um índice de confiabilidade de mais de 99%, segundo a sua fabricante.