A fabricante COMAC enfrenta mais um obstáculo para acelerar a já problemática produção do jato comercial C919 após o governo dos Estados Unidos endurecer o controle sobre a exportação de componentes aeronáuticos para a China. O programa do rival do Boeing 737 e do Airbus A320 segue dependente de fornecedores ocidentais para muitos de seus sistemas mais importantes.

Apenas cerca de uma dúzia de C919 foram entregues em 2026. O ritmo fraco repete 2025, quando a COMAC entregou 15 aeronaves, apesar dos planos para um aumento muito maior na produção.

As dificuldades, portanto, antecedem a mais recente ação de Washington. O Departamento de Comércio dos EUA recentemente desacelerou a aprovação de componentes aeronáuticos destinados à China e restringiu as quantidades disponíveis para a COMAC, segundo a Reuters. Autoridades americanas querem evitar que fabricantes chineses acumulem peças suficientes para reduzir o impacto de possíveis restrições futuras de exportação.

Washington chegou a suspender temporariamente as licenças de exportação para motores LEAP-1C e outros equipamentos aeroespaciais em 2025, antes de permitir a retomada dos embarques. As medidas mais recentes são diferentes: as exportações continuam, mas o controle mais rígido sobre licenças e quantidades dá ao governo dos EUA maior influência sobre o fornecimento de componentes necessários aos fabricantes chineses.

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COMAC C919 (COMAC)
COMAC C919 (COMAC)

Motor CJ-1000A

O C919 é montado na China, mas uma parcela significativa de seus equipamentos vem de fornecedores ocidentais. Seus motores LEAP-1C são produzidos pela CFM International, joint venture entre GE Aerospace e Safran. Outras empresas estrangeiras fornecem aviônicos, trem de pouso, sistemas de controle de voo, sistemas elétricos e diversos outros componentes.

A China desenvolve alternativas nacionais, como o motor CJ-1000A, mas elas ainda não estão disponíveis para substituir os sistemas importados usados nos C919 atualmente em produção.

A carteira de pedidos robusta da COMAC oferece certa proteção contra outro problema típico de novos programas de aeronaves comerciais: encontrar clientes. Mas o backlog precisa ser analisado no contexto da indústria de aviação controlada pelo Estado chinês.

Fábrica da COMAC que será ampliada para produzir mais C919
Fábrica da COMAC que será ampliada para produzir mais C919

A própria COMAC é estatal. As três companhias aéreas que atualmente operam o C919 — China Eastern Airlines, Air China e China Southern Airlines — também são controladas pelo governo chinês. Empresas de leasing chinesas respondem por muitos outros compromissos de compra da aeronave.

Esse arranjo garante ao C919 um grande mercado doméstico mesmo antes de conquistar demanda significativa no exterior. Não resolve, porém, o desafio industrial de produzir aeronaves suficientes para atender a essa demanda.

Certificação europeia

A COMAC também busca a certificação europeia para o C919. A Agência de Segurança da Aviação da União Europeia (EASA) trabalha na validação do certificado chinês de tipo e já realizou atividades de avaliação envolvendo a aeronave na China.

Um certificado da EASA daria à COMAC acesso a mercados que não reconhecem apenas a certificação chinesa e seria um passo importante para vender o C919 além da base de clientes predominantemente doméstica.

O fabricante já promoveu a aeronave fora da China, incluindo voos de demonstração e participações em feiras internacionais. Até agora, porém, o C919 segue sendo um programa essencialmente chinês, tanto em clientes quanto em operações.

A dependência de componentes americanos agora se entrelaça com as negociações entre Pequim e Washington.

Prioridade da indústria chinesa: o motor CJ-1000A é projetado para equipar o jato comercial C919 da Comac (Divulgação)
Prioridade da indústria chinesa: o motor CJ-1000A é projetado para equipar o jato comercial C919 da Comac (Divulgação)

A China concordou, no primeiro semestre de 2026, em adquirir 200 aeronaves da Boeing, mas o compromisso ainda não se transformou em um conjunto completo de pedidos firmes feitos por companhias aéreas chinesas individuais. A Boeing trabalha com clientes chineses para converter o acordo em contratos.

O negócio segue em discussão antes de mais uma reunião entre o presidente Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping. O acesso a equipamentos aeroespaciais dos EUA também está em pauta, com a China buscando maior segurança sobre o fornecimento futuro de componentes.

Isso coloca a aviação comercial no centro das negociações. A Boeing quer que os compromissos chineses se convertam em pedidos firmes de aeronaves, e a China quer acesso confiável à tecnologia aeroespacial americana. A COMAC ainda depende dessa tecnologia para ampliar a produção do C919 e reduzir a dependência chinesa de aeronaves ocidentais.