Mais duas companhias aéreas chinesas manifestaram publicamente interesse em operar o jato comercial COMAC C919, maior modelo já desenvolvido no país.

Shenzhen Airlines e Loong Air abordaram o jato de corredor único chinês durante um fórum de aviação em Guangzhou na semana passada, segundo o South China Morning Post (SCMP). Ambas as empresas atualmente dependem de aeronaves fabricadas no Ocidente e ainda não encomendaram o C919.

O vice-presidente da Shenzhen Airlines, Xiong Taotao, foi especialmente direto ao abordar o problema. Ele afirmou que a companhia espera operar o C919 em breve, mas apontou dificuldades na cadeia de suprimentos e ritmo de produção como obstáculos.

Executivos da Loong Air também demonstraram, segundo o SCMP, “forte interesse” em incorporar o avião à frota, à medida que a empresa sediada em Hangzhou amplia suas operações.

As declarações evidenciam uma situação incomum para a COMAC. Encontrar operadores interessados no C919 dentro da China dificilmente será o maior desafio. O avião é um importante programa industrial apoiado por Pequim, e as companhias aéreas chinesas são incentivadas a adotar equipamentos produzidos localmente, em um esforço para reduzir a dependência de Airbus e Boeing.

A própria Shenzhen Airlines é controlada pelo Estado. A Air China detém 51% da companhia, enquanto os demais acionistas também têm ligação com entidades estatais e o governo municipal de Shenzhen.

Airbus A320 da Shenzen Airlines
Airbus A320 da Shenzen Airlines | Alec Wilson

A Loong Air possui uma estrutura acionária diferente. Fundada como empresa privada, permanece sob controle privado, embora investidores estatais tenham adquirido participações relevantes.

Em ambos os casos, o interesse no C919 não pode ser visto apenas como resultado de uma competição comercial convencional entre COMAC, Airbus e Boeing. A política industrial chinesa criou um grande mercado doméstico potencial para o avião antes mesmo de a COMAC desenvolver capacidade para atendê-lo.

Produção segue como gargalo

Esse desequilíbrio tornou-se cada vez mais evidente à medida que a COMAC enfrenta dificuldades para ampliar a produção do C919.

Os executivos do setor presentes ao fórum de Guangzhou apontaram falta de componentes e limitações na cadeia de suprimentos, com problemas que podem ir além dos motores das aeronaves.

Apesar de montado na China, o C919 ainda depende fortemente de equipamentos estrangeiros. Seus motores LEAP-1C são fornecidos pela joint venture GE Aerospace-Safran, e vários sistemas importantes vêm de fornecedores ocidentais.

A COMAC já anunciou metas ambiciosas de produção, mas as entregas efetivas seguem muito abaixo dos volumes necessários para alterar de forma significativa a composição das frotas das companhias aéreas chinesas.

Loong Air Airbus A320
Loong Air Airbus A320 | Melv_L - MACASR

Com isso, as empresas chinesas continuam adquirindo jatos de corredor único ocidentais, especialmente aeronaves da família Airbus A320neo. A Airbus também mantém uma linha de montagem final em Tianjin e está ampliando sua capacidade industrial no país.

No caso da Shenzhen Airlines, a dependência é especialmente visível. A companhia possui uma grande frota de Airbus, além de Boeing 737, e precisa de muito mais aviões do que a COMAC atualmente poderia fornecer.

A Loong Air também opera majoritariamente jatos Airbus de corredor único. A introdução do C919 diversificaria sua frota, mas as declarações dos executivos sugerem que a disponibilidade, e não a disposição, pode determinar quando isso será possível.

Essa distinção é relevante para o avanço da COMAC. Uma longa lista de companhias interessadas em receber o C919 diz pouco sobre sua capacidade de competir com Airbus e Boeing se não conseguir entregar as aeronaves.