O governo de Portugal deu mais um passo para transformar o país em uma base europeia de produção do A-29N Super Tucano, da Embraer. O Conselho de Ministros reconheceu como de interesse público nacional a instalação de uma linha de montagem final do avião militar, que poderá ser implantada na Base Aérea Nº 11, em Beja.

A decisão não representa ainda o lançamento das obras ou um contrato definitivo para a nova unidade. Ela avança, porém, no projeto anunciado em dezembro de 2025, quando o Ministério da Defesa português e a Embraer assinaram uma carta de intenção para estabelecer a linha de produção.

A escolha de Beja é natural. A base, localizada no sul de Portugal, tornou-se a casa dos A-29N da Força Aérea Portuguesa (FAP), que recebeu seus primeiros cinco aviões em dezembro e iniciou os voos com pilotos próprios em fevereiro.

Mas a futura fábrica não está sendo planejada para produzir os 12 Super Tucano já adquiridos por Portugal. Essas aeronaves começaram a ser fabricadas no Brasil, com os primeiros exemplares enviados posteriormente à OGMA, em Alverca, para receber equipamentos relacionados à configuração portuguesa e aos requisitos da OTAN.

O objetivo da nova linha é olhar além dessa encomenda. Segundo o governo português, a instalação poderá atender necessidades adicionais da própria FAP e potenciais pedidos de outros países europeus. Na prática, Portugal e Embraer estão preparando antecipadamente uma base industrial para disputar um mercado que ainda não existe em escala, mas no qual já surgiram vários interessados.

Integrantes da Força Aérea Portuguesa e da Embraer batizam o A-29N (Embraer)
Integrantes da Força Aérea Portuguesa e da Embraer batizam o A-29N (Embraer)

Europa virou alvo do Super Tucano

A Embraer lançou o A-29N em 2023 especificamente para tentar ampliar a presença do Super Tucano entre países da OTAN.

A configuração acrescentou sistemas e capacidades voltados à interoperabilidade com forças da aliança. Portugal acabou tornando-se o primeiro cliente em 2024, com a compra das 12 aeronaves por cerca de €200 milhões.

O interesse português também permitiu à Embraer estabelecer uma referência europeia para um avião que, apesar de seu sucesso internacional, construiu sua carreira principalmente na América Latina, África e Ásia.

Ainda não existe um segundo cliente confirmado para o A-29N. Isso não significa, entretanto, que a Embraer esteja preparando a linha portuguesa sem potenciais compradores no horizonte.

A Holanda apareceu entre os primeiros mercados abordados pela fabricante. Ainda em 2023, a Embraer incluiu o A-29 entre suas “iniciativas em curso” no país ao assinar um acordo de cooperação com a indústria holandesa de defesa. Naquele momento, executivos da empresa também haviam citado o país entre os possíveis clientes da nova variante.

Mais recentemente, Polônia e Letônia passaram a ser associadas ao Super Tucano por uma razão diferente.

A-29N chegam a Beja
A-29N chegam a Beja

Como o Airway mostrou em janeiro, uma delegação da Força Aérea Polonesa visitou as instalações da Embraer no Brasil e conheceu tanto o KC-390 quanto o A-29. Os militares chegaram a realizar um voo de demonstração no turboélice.

O Super Tucano vem sendo considerado pelos poloneses para missões complementares, sobretudo contra drones, em vez de substituir um caça convencional.

A Letônia demonstrou interesse semelhante. Em julho, o então comandante da força aérea do país, major-general Viesturs Masulis, reuniu-se com representantes da Embraer durante a Global Air & Space Chiefs' Conference, em Londres.

Masulis chegou a defender que o A-29 fosse encarado como uma espécie de sistema móvel de defesa aérea, capaz de interceptar drones lentos sem exigir o emprego de caças e mísseis muito mais caros. O governo letão aguardava uma proposta da Embraer.

Ameaça dos drones cria nova oportunidade

Esse novo cenário pode ampliar justamente o mercado que justificaria uma segunda linha de montagem do Super Tucano.

Quando apresentou o A-29N, a Embraer destacava principalmente treinamento avançado, ataque leve, reconhecimento e interoperabilidade com forças da OTAN. A guerra na Ucrânia e a disseminação de drones de ataque baratos acrescentaram outra possível missão.

Utilizar um caça moderno e um míssil ar-ar de elevado valor para destruir um drone relativamente simples é uma solução pouco eficiente quando os ataques envolvem dezenas ou centenas de alvos.

Um turboélice armado, capaz de permanecer no ar por períodos prolongados e operar por um custo muito inferior ao de um caça supersônico, passou a ser considerado por algumas forças aéreas como uma camada adicional de defesa.

A Embraer também vem trabalhando para explorar essa possibilidade. O Super Tucano está sendo integrado a soluções específicas para combater aeronaves não tripuladas, ampliando uma capacidade que já fazia parte de sua concepção original de interceptar alvos de baixo desempenho.

Base Aérea de Beja, em Portugal
Base Aérea de Beja, em Portugal | Força Aérea Portuguesa

Portugal como base industrial

A iniciativa de Beja também segue uma estratégia que a Embraer já utilizou com sucesso com o KC-390 Millennium.

Portugal foi um dos primeiros clientes internacionais do cargueiro e sua indústria assumiu uma participação importante no programa. A OGMA, controlada conjuntamente pela Embraer e pelo governo português, participa da fabricação e manutenção do KC-390, enquanto outras estruturas da fabricante brasileira foram estabelecidas no país.

No A-29N, Portugal foi além de simplesmente comprar o avião. Parte do investimento do programa está sendo direcionada à indústria local para desenvolver e integrar a configuração destinada à FAP. A futura linha de Beja acrescentaria a montagem final a essa estrutura.

Isso também daria à Embraer um argumento diferente em futuras campanhas. Em vez de oferecer a países da OTAN uma aeronave militar fabricada exclusivamente no Brasil, a empresa poderia apresentar um A-29N produzido dentro da Europa, por uma estrutura industrial instalada em um país da própria aliança.

A aposta ainda precisa encontrar compradores. Holanda, Polônia e Letônia não encomendaram o Super Tucano e nenhum dos três países conduz atualmente uma aquisição que garanta trabalho à futura linha de Beja.

O que Portugal e Embraer estão fazendo é preparar essa capacidade antes que uma segunda encomenda apareça. Se o interesse europeu pelo A-29N se transformar em contratos, os próximos Super Tucano da OTAN poderão sair de uma fábrica portuguesa, e não da atual linha de montagem da Embraer no interior de São Paulo.